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Telemetria em Simuladores de Corridas

TELEMETRIA EM SIMULADORES DE CORRIDAS

A primeira vez que ouvi falar em telemetria em carros de corridas foi no final dos anos 80 quando Senna corria na McLaren com o fantástico MP4/4. Li um artigo, acho que do Reginaldo Leme, não lembro ao certo, onde o autor do artigo falava da dedicação de Senna, que depois dos treinos passava horas no motorhome analisando os dados da telemetria obtida do carro durante o treino, e tinha umas fotos que mostravam os gráficos da telemetria. Aquilo me fascinou, parecia magia negra você obter dados de um carro na pista e depois poder analisar o comportamento do carro através daqueles gráficos.

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Bom, o tempo passou mas eu continuei fissurado na telemetria, saia um artigo aqui, uma matéria na tv ali, e eu cada vez mais impressionado com aquela nova ferramenta. No ano de 2000 a Microprose lançou o Grand Prix 3 (GP3) do Geoff Crammond, um fantástico simulador de Fórmula 1 e um amigo me passou uma cópia “alternativa” do GP3, pois na época não tinha como comprar este software aqui no interior do nordeste, não havia ainda o e-comerce, tampouco tinha banda larga por aqui. Instalei o GP3 e foi uma época fantástica, mas como era uma cópia alternativa, eu não tinha o manual e não sabia que tinha um tesouro escondido ali, até que um dia o Augusto Brasileiro, um grande amigo de longas datas me perguntou se eu usava a telemetria do GP3, coisa que eu nem sabia que existia. Falei que não, que sequer sabia disto. Ele me mostrou e foi uma coisa mágica, desde então nunca mais consegui me separar da telemetria nos simuladores de corrida.

Eu podia ver onde as rodas estavam travando, onde o carro estava batendo no chão, onde a suspensão estava dando fim de curso, podia ver a aceleração lateral, longitudinal e até se estava esterçando demais o volante, era uma coisa tão mágica quanto guiar o carro.

E desde então tenho que conviver quase que diariamente com a gozação dos amigos, que é sempre a mesma ladainha: “LC esquece esta coisa de telemetria, de app disto e daquilo e foca no apex”. Eu até entendo, é como você pegar um garoto e mostrar algo pra ele em uma TV com resolução 4K, eles não vêem nada demais naquilo, o mundo já era assim quando eles nasceram, eles não assistiram TV em uma TV “de tubo” em preto e branco. Até hoje eu fico fascinado com uma imagem de uma tv HD, pois aquilo me remete às TV´s da minha infância distante, mas entendo também a visão dos garotos com relação as TV´s HD e por tabela entendo a posição dos meus amigos com relação a telemetria.

 

Coverbild Grand Prix 3

 

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Bom, o tempo continuou passando, veio o GP4, fechando o ciclo do Geoff Crammond e seus fantásticos simuladores de Fórmula 1. Com o fim da série GP do Crammond, a coisa descambou para os arcade e eu me voltei para o turismo, onde encontrei meu hoby, minha verdadeira paixão no mundo da simulação, e em particular a categoria NGT, hoje GT3. No começo de 2005 a Simbin lançou o GTR, uma revolução total no mundo dos simuladores, ditando novos padrões e até hoje, mais de uma década depois, nenhum dos simuladores atuais oferece as “features” que ele oferecia naquela época. O GTR deu um passo gigantesco no que diz respeito a telemetria em simuladores de corridas, a sua “engine” produzia e exportava dados gerados pelos carros, não para um simulador de telemetria, mas para o próprio software de telemetria mais usado do planeta, o MoTeC. Uma sacada absolutamente sensacional, não era um simulador, era o próprio MoTeC, o mesmo usado pelos engenheiros, mecânicos e pilotos das equipes reais. Atualmente todos os simuladores geram arquivos que podem ser analisados no MoTeC, mas nenhum fornece/simula a gama de dados que o GTR/GTR2 fornecia/simulava.

Você tinha absolutamente todos os dados dos carros do GTR2 no MoTeC: altura do carro em relação a pista, curso da suspensão, dos amortecedores, desgaste e temperatura de freios, temperatura da água e do óelo do motor, desgaste do motor, dados do diferencial, da distribuição de peso do carro, enfim, absolutamente tudo. Nenhum simulador atual chega aos pés do GTR/GTR2 no que diz respeito a telemetria ou a simulação de todos os parâmetros de um carro de corridas. O MoTeC infelizmente não podia ser usado em tempo real no GTR2.

O GTR abriu um novo mercado no mundo do simracing, o dos desenvolvedores de software e hardware para telemetria. Apareceram vários aplicativos para se usar telemetria em tempo real no GTR2, surgiram pequenos monitores de LCD específicos para telemetria no GTR2, tacômetros com shift light e até paineis imitando um painel do MoTeC de alguns carros. O app que eu mais usei e gostei foi o Motec Add Pro Dual View, um app sem igual até hoje. Esta versão Dual View, como o próprio nome sugere, era para ser usada em um segundo monitor, mas também existia uma versão para ser usada como os apps do Assetto Corsa, na própria tela do simulador.

Eu adorava o MoTeC, mas tinha algumas dificuldades, então o amigo Marcos Gomes desenvolveu um projeto, acredito que baseado no projeto do Spads, uma figura muito conhecida no site NoGrip na época. O projeto era sensacional, e dai pra frente, usar o MoTeC era tão gostoso quanto guiar o carro. Mas como nada que é bom dura para sempre, a época do GTR2 passou.

Fui para o iRacing e continuei usando o MoTeC lá, mas faltavam informações, o iRacing não fornecia as informações dos pneus e outra série de coisas. Foi um balde de água fria, acabei deixando o MoTeC de lado e posteriormente o iRacing também.

Veio então a fase do Assetto Corsa. Fiquei muito empolgado com o simulador, e poucos meses depois veio o software ACTI (Assetto Corsa Telemetry Interface), um software que possibilitava o uso do MoTeC com o Assetto Corsa. Instalei tudo e fui todo empolgado testar. Foi um balde de água fria, o Assetto Corsa fornecia muito poucas informações para o MoTeC e acabei deixando de lado, até que há pouco tempo atrás o Newton Prado, um dos membros da lista da Racelan, voltou a mencionar o uso do MoTeC com o Assetto Corsa no nosso “fórum”, que é a nossa lista. O Newton se dispunha a passar um projeto para o Assetto Corsa no MoTeC e ajudar quem tivesse interesse. Fiquei pensando naquilo, mas com um campeonato em andamento e as coisas do trabalho, acabei esquecendo, até que há poucos dias li algo a respeito da evolução do uso do MoTeC no Assetto Corsa e acabei lembrando da oferta do Newton e mandei e-mail para ele. O Newton prontamente me mandou um projeto, baseado no projeto original do ACTI, mas customizado para a McLaren 650S GT3, meu carro no campeonato. Desde então temos trocado informações, pedi uma inclusão de umas informações mais “visuais”, sugeri a inclusão de uma ou outra worksheet no workbook e a coisa tem caminhado de forma satisfatória, apesar do Asseto Corsa ainda não fornecer vários dados do carro.

Como eu falei no início, muita gente acha que telemetria é perda de tempo, mas nada poderia estar mais distante da verdade. E quanto maior o nível do piloto, mais ele pode se beneficiar da telemetria. Em vez de perder tempo dando voltas e voltas para sentir qual o melhor ajuste para o carro, você poderia simplesmente consultar um gráfico para sanar uma determinada dúvida. Evidentemente tem coisas complicadas no MoTeC, mas estas eu passo longe. O uso que eu faço do MoTeC dispensa qualquer conhecimento prévio do MoTeC, eu não desenvolvo projetos para o MoTeC, eu sou apenas um usuário final, me limito a usar o MoTeC para comparar dados. Posso consultar o MoTeC para ver se um determinado acerto de asa é melhor que outro, se a força G gerada nas curvas vai compensar a perda de velocidade nas retas, por exemplo.

Foi criada uma aura de mistério em torno do MoTeC, que seria algo complicado, que só um engenheiro conseguiria usar. Existem sim algumas coisas complicadas no MoTeC, mas o uso que faço dele é totalmente visual.

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No gráfico da pista acima, eu posso ver se minha 6ª marcha está legal, se eu estou chegando no final da reta, o ponto mais rápido do circuito, na potência máxima do meu carro, a McLaren 650S GT3. O círulo vermelho no final da reta mostra a posição do carro na pista.

A McLaren 650S tem tem seu torque máximo por volta de 4000 RPM e sua potência máxima por volta de 7000 RPM, então eu obtenho seu desempenho máximo andando com o carro nesta faixa de rotações.

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Para verificar se eu estou andando dentro desta faixa de RPM no MoTeC simplesmente eu olho o gráfico abaixo (lado direito).

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O uso que eu faço do MoTeC é este, não uso nada que não seja a interpretação gráfica.

Além do MoTeC, uso também o DashMeter Pro, um app muito bom, que roda em dispositivos Android. Este app vem com 3 templates,  mas você pode personalisar para o seu gosto, selecionando as informações que você quer que sejam exibidas no template. Por exemplo, quanto combustível você vai precisar para terminar a prova, tempo restante para terminar a prova, etc…

O DashMeter Pro é pago, mas não é dos mais caros, acredito que custa por volta de R$ 18,00 e você pode rodar mais de uma instância. Eu uso por exemplo, uso uma instância em um smartphone no volante, apenas com este template que aparece na imagem acima, a do fundo preto com as informações em vermelho, e uso outra instância em um tablet, para uma eventual consulta a outras informações, em um reta.

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Além do DashMeter Pro tem vários outros softwares de telemetria, inclusive alguns gratuitos. Um muito bom, que uso há bastante tempo é o Dashboard, que tem bastante informação e tem uns templates sensacionais.

 

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Estes apps que eu citei acima, e vários outros não mencionados, são todos muito bons e fornecem várias informações, mas para ajudar mesmo no setup tem que ser o MoTeC ou  Race Studio (AIM). Comparar dados de voltas com ajustes diferentes, para decidir qual é o melhor ajuste é um dos pontos altos destes softwares.

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Além destes softwares mencionados acim, um outro que eu particlarmente gosto muito é o  Z1Analyzer, que é um capítulo a parte, pois além da telemetria trata também do traçado e da tocada do piloto. Além do Z1Analyzer, tem o Z1 Dashboard, que é bastante semelhante ao DashMeter Pro, mas que roda no Windows. Você instala o Z1Server no micro que roda o Assetto Corsa e o Z1Analyzer e o Z1Dashboard pode ser usado em outro computador. No meu caso eu uso em um notebook, para não ter que ficar dando alt + tab para sair e voltar para o Assetto Corsa. O Z1Analyzer pode inclusive ser usado em tempo real, mas este seria o caso de ser usado por outra pessoa, para conferir o comportamento do carro na pista.

 

Z1Dashboard

O Z1Dashboard é um dos poucos softwares, se não o único, que formece informações sobre os pneus dos carros do iRacing.

Mas a utilização que eu mais gosto do Z1 é a análise da volta, do meu traçado. Ele me dá informações de onde eu estou perdendo o apex da curva, onde eu estou aproveitando pouco a saída de curva, onde os freios estão travando, etc…

 

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Na imagem acima, as linhas brancas são os limites da pista, a linha vermelha é o meu traçado na pista.

 

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Usar telemetria não vai transformar você em um Huttu, mas no meu caso, me dá um prazer enorme treinar e ficar analisando a telemetria e ver onde posso melhorar o acerto do carro, acho que este é o grande benefício da telemetria para mim, transformar uma coisa que poderia ser chata, ficar dando voltas e mais voltas, em uma coisa prazerosa.

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Luis Carlos Dantas Matias, Maio de 2017.

 

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